Contactos

Visitas

130769
Hoje
Ontem
Semana
Semana passada
Mês
Mês passado
Total
119
154
273
119341
3658
5034
130769
Seu IP: 54.156.47.142
Data: 2017-09-26 12:50:22

Loja olx

T-shirt4you

T-shirt4you

T-shirt4you

T-shirt4you

O ARQUIPÉLAGO DOS AÇORES

Publicado em 15-12-2015 Visitas: 811

Categoria: Geologia geral

     O arquipélago dos Açores situa-se em pleno Atlântico Norte entre as latitudes 37º e 40ºN e as longitudes 25º e 31ºW, a uma distância de cerca de 1600 km do continente europeu. É composto por nove ilhas e diversos ilhéus, dispostas ao longo de um conjunto de alinhamentos tectónicos de orientação geral WNW-ESE. As ilhas do arquipélago dos Açores estendem-se por uma faixa com cerca de 600 km de extensão, segundo três grupos distintos (Figura 1.1): o Grupo Ocidental inclui as ilhas de Flores e Corvo, o Grupo Central as ilhas Terceira, Graciosa, São Jorge, Pico e Faial, enquanto que o Grupo Oriental integra as ilhas de São Miguel e Santa Maria e os Ilhéus das Formigas.

     As ilhas, que ocupam uma área global de 2333 km2, emergem de uma vasta zona submarina pouco profunda - o “Plateau” dos Açores - de forma aproximadamente triangular e limitada a Oeste pelo rifte médio-atlântico. Esta zona, a Plataforma dos Açores, que é usualmente definida pela curva batimétrica dos 2000 m, ocupa uma área de cerca 5,8 milhões de km2 e marca a transição para a planície abissal circundante, de profundidades superiores a 3500 m (Figura 1.1).

Fig. 1.1. Localização geográfica do arquipélago dos Açores e representação esquemática da Plataforma dos Açores (adaptado de Nunes, 1991 e Luis et al., 1994).


     1.1. ENQUADRAMENTO GEOTECTÓNICO

 

     A junção tripla dos Açores apresenta-se como uma região tectonicamente muito complexa, onde confluem vários alinhamentos importantes. De um modo genérico, a Crista Médio-Atlântica (CMA) separa a placa Americana, a Ocidente, das placas Euroasiática e Africana, a Este, enquanto que a Falha Açores-Gibraltar corresponde à fronteira das placas Euroasiática, a Norte, e Africana, a Sul (Figura 1.2). Apesar disso, subsistem muitas interrogações acerca desta fronteira de placas no troço compreendido entre a ilha de Santa Maria (sensivelmente entre 25ºW) e a CMA.

     Da análise da vasta bibliografia disponível sobre o assunto, objecto de análise anterior (Nunes, 1991), constata-se que a natureza e a localização dos ramos Norte e Sul da junção tripla dos Açores são maioritariamente aceites: a placa Americana está separada das restantes duas placas por intermédio da CMA, uma estrutura distensiva pura com tracção perpendicular à crista, localizada entre as ilhas do Faial e das Flores e que se apresenta cortada por diversas falhas transformantes E-W. Por outro lado, o terceiro ramo da junção tripla dos Açores (a Falha Açores-Gibraltar) apresenta três troços com comportamento geodinâmico distinto (Figura 1.2): um troço Leste, onde ocorre o cavalgamento da placa Euroasiática sobre a placa Africana; um troço central caracterizado por uma estrutura tectónica de desligamento direito puro e, um troço Oeste, com comportamento de transformante leaky, com expansão oblíqua.

     É precisamente a localização geográfica e a natureza desse ramo Oeste da Falha Açores-Gibraltar (ou seja, para Oeste de 25ºW) que mais dúvidas e debates suscita. Apresentam-se, de seguida, as principais características geotectónicas da junção tripla dos Açores, objecto de outras abordagens mais detalhadas (e.g. Nunes, 1991 e Madeira, 1998), sem contudo pretender-se esgotar o tema, nem tão pouco apresentar uma discussão final e exaustiva sobre o assunto.

     Localizada sensivelmente a meia distância entre as ilhas das Flores e do Faial, a Crista Médio-Atlântica (CMA) evidencia uma mudança de orientação de N10E, a Norte de 39°10'N, para uma direcção N20E, a Sul de 38°40'N. Ao atravessar a Plataforma dos Açores, ou seja, para Sul de 39º30’N, o vale mediano está praticamente ausente e a crista perde grande parte da sua definição batimétrica. Contudo, a utilização do sonar GLORIA, a distribuição dos sedimentos (Searle, 1980) e o padrão das anomalias magnéticas (Luis et al., 1994) permitem inferir a posição da CMA na Plataforma dos Açores (Figura 1.3).

Fig. 1.2. Enquadramento geotectónico do arquipélago dos Açores (adaptado de Forjaz, 1983 e Buforn et al., 1988; in: Nunes et al., 1993).


 

     A CMA é cortada por diversas falhas transformantes de direcção geral E-W e apresenta maiores velocidades de expansão a Norte do Plateau dos Açores do que a Sul: Laughton e Whitmarsh (1974) apresentam valores de 1,7 cm/ano para a velocidade média de expansão a Norte dos Açores e 1,2 cm/ano a Sul, segundo uma direcção paralela às falhas transformantes. Segundo Luis et al. (1994) a taxa de expansão da CMA na região dos Açores diminuiu, sistematicamente, de 4 cm/ano para valores de 1,4 cm/ano, no intervalo de tempo de 10,10 a 3,85 MA, acelerando depois até valores de 2,5 cm/ano, segundo o azimute N100º.

     O trabalho de Luis et al. (1994) veio trazer novos e importantes dados acerca da localização e orientação da CMA na zona da Plataforma dos Açores. Assim, verifica-se que entre 40º20’N e 37º30’N, o eixo da crista é deslocado, sinistrogiramente ou dextrogiramente, ao longo de cinco estruturas tectónicas principais, de orientação geral E-W (Figura 1.3) e que são, de Norte para Sul: a Zona de Fractura Norte dos Açores (ZFNA), a Zona de Fractura Faial-Pico (ZFFP), a Zona de Fractura do Banco Açor (ZFBA), a Zona de Fractura do Banco Princesa Alice (ZFBPA) e, mais a Sul, a Zona de Fractura Oeste dos Açores (ZFOA), também designada por “Zona de Fractura Pico”.

Fig. 1.3. Principais acidentes tectónicos da junção tripla dos Açores (adaptado de Nunes, 1991 e Luis et al., 1994). O asterisco indica a localização do sismo da Terceira de 1/Jan/1980. Explicação no texto.


     A Zona de Fractura Norte dos Açores (ZFNA) desloca a crista cerca de 20 km para Oeste e, de acordo com Searle (1980), durante um longo período de tempo a junção tripla dos Açores foi estabelecida através da ZFNA, que faria a ligação entre a CMA e o Rifte da Terceira. Há cerca de 6 MA a junção tripla ter-se-á deslocado mais para Sul.

     A Zona de Fractura Oeste dos Açores (ZFOA), também conhecida por Pico Fracture Zone, é assísmica e é considerada como a continuação da Zona de Fractura Este dos Açores (ZFEA), após um pequeno deslocamento para Norte, na região da Crista Médio-Atlântica. A sua importância no contexto da tectónica actuante na região dos Açores é controversa, uma vez que actualmente não se observa um movimento relativo ao longo desta zona de fractura.

     Pelo contrário, a Zona de Fractura Este dos Açores (ZFEA), de orientação geral E-W, desenvolve-se para Oeste da ilha de Santa Maria, sensivelmente ao longo do paralelo 37°N e apresenta uma boa expressão batimétrica. Com actividade sísmica muito reduzida, esta zona é considerada como tendo constituído o terceiro ramo da junção tripla dos Açores na sua fase inicial de desenvolvimento e estará actualmente inactiva, com a migração para Norte da fronteira de placas Eurásia-África (Searle, 1980 e Luis et al., 1994).

     A Zona de Fractura Faial-Pico (ZFFP) está bem evidenciada na batimetria da Plataforma dos Açores, apresenta uma elevada sismicidade (Nunes, 1991) e manifesta um vulcanismo activo e muito recente (cf. Capítulo 4). De acordo com Luis et al. (1994), este acidente tectónico, que é um dos mais importantes da Plataforma dos Açores, define, na junção desta estrutura com a Crista Médio-Atlântica, o actual posicionamento do ponto triplo dos Açores.

     Como atrás se referiu, a Falha Açores-Gibraltar pode ser subdividida em três troços distintos, com dimensão, características tectónicas e comportamento geodinâmico diferente. O segmento mais oriental desta falha corresponde à região que se estende da Crista Tore-Madeira (aproximadamente a 15°W) até Gibraltar, evidenciando uma batimetria muito irregular. A fronteira de placas é caracterizada por um movimento de cavalgamento da placa Euroasiática sobre a placa Africana, onde os mecanismos focais indicam movimentos do tipo falha inversa na sequência de uma compressão N-S resultante do movimento retrógrado da placa Africana em relação à Euroasiática (Udías, 1980). Nesta zona localizaram-se os epicentros de importantes sismos, frequentemente com tsunamis associados, como foi o caso do terramoto de 1 de Novembro de 1755 (M=8,5), ou do sismo de 28 de Fevereiro de 1969 (M=7,1).

     No referido troço da fronteira de placas foram determinadas taxas de deslocamento de 1,14 cm/ano, de subducção da placa Africana nesta região (Buforn et al., 1988). Para Este de Gibraltar abandona-se o domínio oceânico e entra-se em domínio continental, com a colisão dos continentes europeu e africano, e a sismicidade torna-se mais difusa, estendendo-se por uma faixa com cerca de 500 km de largura (Ribeiro, 1982).

     O troço central da Falha Açores-Gibraltar, de orientação geral E-W, desenvolve-se para Leste da ilha de Santa Maria, por cerca de 800 km, entre as Longitudes 24° e 15°W (Figura 1.3). Este acidente tectónico, usualmente referido como a Falha GLORIA (FG), é caracterizado, batimetricamente, por uma impressionante estrutura linear, nalguns troços subdividida em vários ramos paralelos e cujos perfis N-S revelam uma importante escarpa de falha de aspecto recente (Searle, 1980). A Falha GLORIA é sismicamente activa mas, ao contrário do anterior troço da Falha Açores-Gibraltar, evidencia um movimento do tipo desligamento direito puro. Alguns dos sismos sentidos na ilha de Santa Maria, como o sismo de 8 de Maio de 1939 (M=7,1 e I=VII), tiveram foco nesta estrutura tectónica.

     A predominância de mecanismos focais do tipo desligamento, a ausência de tsunamis associados e a ocorrência de sismos fortes são atribuídos à natureza intraoceânica desta fronteira de placas, onde Buforn et al. (1988) determinaram velocidades de 3,39 cm/ano para o deslocamento relativo entre as placas Euroasiática e Africana.

     O troço mais ocidental da Falha Açores-Gibraltar desenvolve-se através das ilhas do arquipélago dos Açores, desde a ilha de Santa Maria até à Crista Médio-Atlântica. O Rift (ou Ridge) da Terceira (RT), desenvolve-se ao longo das ilhas Graciosa, Terceira e São Miguel, até à ilha de Santa Maria e é considerado por alguns autores como a actual fronteira de placas Eurásia-África nesta região do Atlântico. O actual padrão da sismicidade dos Açores revela uma distribuição dos epicentros maioritariamente concentrada ao longo de uma estreita faixa coincidente com o RT, favorecendo esta interpretação (Nunes, 1991 e Luis et al., 1994).

     Apesar da sua designação, o Rifte da Terceira não corresponde a uma estrutura distensiva pura, tal como sugerido por alguns autores (e.g. Udías, 1980), mas corresponderá antes a uma transformante leaky, com expansão oblíqua, característica que é compatível com os dados morfológicos, magnéticos, sismotectónicos e neotectónicos disponíveis e com o movimento de desligamento direito puro que caracteriza a Falha GLORIA (Searle, 1980 e Ribeiro, 1982).

     O Rifte da Terceira (Figura 1.3), de orientação geral WNW-ESE, apresenta um comprimento total de cerca de 500 km e é composto por uma série de bacias (fossas) tectónicas, separadas por cristas ou maciços vulcânicos submarinos, ligando-se à CMA através da Zona de Fractura Norte dos Açores. Foram determinadas neste troço da fronteira de placas, velocidades de deslocamento relativo entre as placas Euroasiática e Africana de 0,76 cm/ano (Buforn et al., 1988).

     Apesar de muitos outros acidentes tectónicos afectarem a região dos Açores, merecem ainda destaque, pelo facto de serem frequentemente referidas nesta área do Atlântico, a designada Transformante Leaky de São Jorge (TSJ) e da falha geradora do sismo de 1 de Janeiro de 1980. A TSJ corresponde a um alinhamento tectónico de orientação geral WNW-ESE há muito conhecido nos Açores (e.g. Agostinho, 1935), com expressão subaérea ao longo da ilha de São Jorge, onde o vulcanismo, do tipo fissural e essencialmente estromboliano, se manifesta pela ocorrência de inúmeros cones de escórias alinhados.

     Pelo contrário, a falha geradora do sismo da Terceira de 1980 só foi detectada na sequência dos estudos de Hirn et al. (1980), a partir da distribuição epicentral das réplicas daquele sismo, o mais forte abalo sísmico ocorrido nos Açores no presente século. De orientação geral NNW-SSE, esta falha apresenta-se como um desligamento esquerdo.

     Apesar dos vários modelos tectónicos propostos para a região do arquipélago dos Açores, não há, ainda, um modelo unanimemente aceite para a descrição da actual cinemática da junção tripla dos Açores, bem como para a natureza e a localização geográfica precisa do terceiro ramo desta junção. A presença do “ponto quente” dos Açores e a elevada complexidade da região, que se manifesta designadamente na morfologia submarina da Plataforma dos Açores, tornam, por outro lado, muito difíceis os estudos geofísicos nesta região do Oceano Atlântico (Luis et al., 1994).

     Como foi referido, as principais questões em aberto ou ainda objecto de discussão, residem na definição da natureza do terceiro ramo da junção tripla dos Açores, na região entre a Crista Médio-Atlântica e a ilha de Santa Maria (estrutura do tipo rifte ou transformante, com ou sem expansão oblíqua) e na sua localização. Ou seja, a fronteira de placas Eurásia-África na região das ilhas dos Açores será definida pelo Rifte da Terceira, pela Transformante de São Jorge, pela Zona de Fractura Faial-Pico ou, ainda, por outro(s) acidente(s) tectónico(s) activo(s) de orientação geral WNW-ESE? Por outro lado, diversos autores sugerem a existência, actual ou no passado, de uma mini ou microplaca (Machado et al., 1972, Madeira e Ribeiro, 1989 e Luis et al., 1994) – a designada “Microplaca dos Açores” (Forjaz, 1983) - coincidente grosso modo com a Plataforma dos Açores e que definiria, assim, uma área-limite para esta fronteira de placas, em vez de uma única directriz tectónica (Figura 1.2).

 

 

     1.2. BATIMETRIA E ANOMALIAS MAGNÉTICAS

 

     Como se disse, as ilhas do arquipélago dos Açores emergem da Plataforma dos Açores, que, grosso modo, está limitada a Oeste pela Crista Médio-Atlântica, a Sul pela Zona de Fractura Este dos Açores e a NE pelo alinhamento definido pelo Rifte da Terceira (Figuras 1.1 e 1.3). Ao contrário de uma zona de topografia regular como se poderia depreender da sua designação, a Plataforma dos Açores apresenta-se com uma batimetria muito irregular, com um vasto conjunto de depressões e elevações, muitas vezes definindo nítidos alinhamentos (Figura 1.4).

     O Rifte da Terceira está perfeitamente delimitado por uma sequência de bacias (fossas) e de cristas submarinas, algumas das quais se elevam acima do nível do mar formando as ilhas Graciosa, Terceira e São Miguel e os Ilhéus das Formigas. Esta sequência compreende, entre outras (Figura 1.4), a Fossa do Hirondelle (FH), a Fossa Este da Graciosa (FEG), a Fossa Oeste da Graciosa (FWG) e o Banco D. João de Castro (BDJC), localizado a 38°13'N, 26°36'W. No extremo NW do Rifte da Terceira, a batimetria indicada na Figura 1.4 mostra um alinhamento geral E-W, claramente definido pela ilha Graciosa e pela FWG, que poderá ser interpretado como resultante da proximidade da Zona de Fractura Norte dos Açores.

Fig. 1.4. Carta batimétrica do arquipélago dos Açores, região do Grupo Central e ilha de São Miguel (in: Nunes, 1991). As principais fossas são indicadas a azul. Explicação no texto.


 

     De acordo com Searle (1980), os dados do sonar GLORIA mostram que os flancos das bacias correspondem a escarpas de falhas normais, melhor expressas nas Fossas do Hirondelle e da Graciosa. Com secção geralmente rectangular, estes importantes acidentes geomorfológicos são interpretados como depressões tectónicas resultantes de um processo de rifting, com expansão oblíqua.

     A maioria das elevações que caracterizam a Plataforma dos Açores são maciços vulcânicos submarinos, desprovidos de sedimentos e onde os registos de eco-sondagem sugerem a existência de enxames de falhas activas recentes e revelam características de crusta oceânica jovem (Searle, 1980). De entre estas elevações submarinas destacam-se os bancos D. João de Castro, Açor e Princesa Alice, estes últimos localizados a SW da ilha do Faial e implantados em importantes zonas de fractura, de orientação geral WNW-ESE (Figura 1.3). O alinhamento tectónico definido pelas ilhas do Faial e do Pico (a Zona de Fractura Faial-Pico) possui uma clara expressão batimétrica para SE desta ilha (Figura 1.4).

     A principal característica do padrão magnético dos fundos oceânicos na região dos Açores é a presença de duas orientações principais para as anomalias magnéticas. Os dados disponíveis evidenciam a presença de uma faixa com cerca de 130 km de largura, que se estende desde os Ilhéus das Formigas até à Fossa Oeste da Graciosa, onde as anomalias magnéticas têm uma orientação geral N60W - a “orientação dos Açores”. Fora desta faixa, bem como a Norte e a Sul da Plataforma dos Açores, os alinhamentos magnéticos apresentam, uma direcção geral que varia de N7E a N22E: a orientação típica da Crista Médio-Atlântica. A faixa acima definida apresenta boa expressão batimétrica e define o Azores Spreading Centre (Searle, 1980), cujo eixo actual corresponde ao Rifte da Terceira.

     De acordo com Searle (1980), a existência de anomalias magnéticas com a “orientação Açores” numa faixa bem definida e a ocorrência de alinhamentos magnéticos com a “orientação CMA” (N10E) entre as ilhas dos Açores e a Zona de Fractura Este dos Açores, não são compatíveis com uma migração para Norte da junção tripla. Em alternativa, sugere que a junção tripla dos Açores seria inicialmente estabelecida pela intersecção da Crista Médio-Atlântica com a ZFEA, mas há cerca de 36 MA ocorreu um súbito rearranjo da junção, na sequência de uma mudança no movimento relativo entre as placas Euroasiática e Africana. Nesta altura a ZFEA tornou-se inactiva e a junção tripla dos Açores saltou para um ponto mais a Norte (na intersecção da CMA com a Zona de Fractura Norte dos Açores), sob a forma de um centro de expansão secundário, com expansão oblíqua, i.e. o “Centro Expansivo dos Açores”.

     O esquema evolutivo proposto estaria de acordo com o padrão das anomalias magnéticas observado na região dos Açores, onde os alinhamentos WNW-ESE estão limitados à região adjacente ao Rifte da Terceira, enquanto que nas restantes zonas o padrão magnético é dominado pela “orientação CMA”. Ainda segundo Searle (1980), a actividade vulcânica e sísmica recentes parecem, contudo, indiciar que a junção tripla dos Açores se situa actualmente mais a Sul, a 38°40'N, na intersecção da CMA com um terceiro ramo de orientação geral E-W.

     Apontando igualmente para o facto da junção tripla dos Açores se situar actualmente na intersecção da Zona de Fractura Faial-Pico com a Crista Médio-Atlântica (sensivelmente a 38º55’N, 30º00’W), Luis et al. (1994) sugerem, pelo contrário, que a junção tripla dos Açores terá sofrido uma migração para Norte nos últimos 10 MA.

     Migrando segundo saltos consecutivos, a junção tripla dos Açores terá passado, sucessivamente, da Zona de Fractura Este dos Açores (anteriormente a 10 MA), para a Zona de Fractura Banco Princesa Alice, para a Zona de Fractura do Banco Açor e, provavelmente, para a Zona de Fractura Faial-Pico, actualmente. Desta migração resultou uma mudança na forma do “bloco Açores”, que cresceu longitudinalmente, enquanto diminuiu em latitude, apresentando actualmente uma forma alongada.

     O facto dos pólos de rotação calculados se concentrarem numa estreita faixa, próxima da zona cujo movimento pretendem descrever, sugere, segundo aqueles autores, que o “bloco Açores” para Norte da Zona de Fractura Banco Princesa Alice, e no intervalo de tempo entre 10,10 e 3,85 MA, se comportou como uma (micro)placa (com movimento independente em relação às placas adjacentes), cuja fronteira Sul, como se disse, migrou progressivamente para Norte. Nos últimos 2,45 MA, a microplaca dos Açores movimenta-se conjuntamente com a Placa Euroasiática.

     Os dados magnéticos disponíveis não permitem localizar com precisão o limite Norte deste “bloco Açores”, embora os elementos existentes (incluindo os dados morfológicos e sísmicos) sugiram que aquele limite de placas será definido pelo Rifte da Terceira, acidente tectónico este que, nos últimos 10 MA, terá actuado como um “centro de expansão em leque”, criando o enquadramento tectónico necessário à implantação das ilhas do arquipélago dos Açores (Luis et al., 1994)

 

 

 

     1.3. ACTIVIDADE VULCÂNICA E SISMICIDADE

 

     O peculiar enquadramento geotectónico do arquipélago dos Açores, confere-lhe uma actividade vulcânica importante e uma elevada sismicidade. Segundo Weston (1964), desde a descoberta e povoamento das ilhas dos Açores, na primeira metade do século XV, foram reportadas 32 erupções vulcânicas na região dos Açores. Uma análise crítica deste total deve ter em conta que na sua avaliação foram incluídos focos eruptivos que podem ser considerados como estando associados a uma mesma erupção vulcânica, como sejam os casos dos focos na Lagoa do Fogo e no Pico do Sapateiro (erupção de 1563) e, mais recentemente, dos focos nos Capelinhos e no interior da Caldeira do Faial (erupção de 1957-58). Por outro lado, colocam-se algumas dúvidas ou existem incertezas relativamente à ocorrência de alguns fenómenos eruptivos reportados (1963, na ilha do Pico, 1964, em São Jorge), bem como à localização dos centros emissores de outras erupções históricas.

     Inversamente, o número anteriormente apontado não inclui, muito provavelmente, várias outras erupções que terão tido lugar nos mares dos Açores longe de uma eventual observação humana, ou que terão ocorrido a profundidades demasiado grandes para provocarem quaisquer efeitos superficiais observáveis. Adicionalmente, os estudos vulcanológicos em curso em diversas ilhas dos Açores, nomeadamente no domínio da cartografia, têm fornecido novos dados sobre este tema, como é o caso dos elementos actualmente disponíveis sobre o Vulcão Furnas (ilha de São Miguel), que apontam para a ocorrência de duas erupções no século XV (designadamente por volta de 1425 e em 1439-1443), para além da erupção de 1630, vastamente referenciada (Queiroz et al., 1995).

    No arquipélago dos Açores deram-se não só erupções subaéreas (nas ilhas de São Miguel, Terceira, São Jorge, Pico e Faial), mas também fenómenos vulcânicos submarinos, que originaram pequenas ilhas emersas ou, simplesmente, baixios. De entre os vulcões submarinos dos Açores destaca-se o Banco D. João de Castro, considerado como um dos mais importantes vulcões activos do arquipélago, com grande actividade sísmica e um importante campo fumarólico submarino, onde foram medidas, em 1989, temperaturas da água do mar de 55°C junto às fontes de calor (Nunes, 1991). Em 1996, durante uma expedição ao BDJC coordenada pelo Clube Naval de Ponta Delgada, foram medidas temperaturas de 110ºC no fundo rochoso (Forjaz, com. pess.).

     A última erupção vulcânica ocorrida nos Açores teve início em finais de 1998 e estará, ainda, em curso. Com foco(s) localizados no mar, sensivelmente a 10-15 km a Oeste da ilha Terceira, a “erupção da Serreta” desenvolve-se no troço do Rifte da Terceira que se desenvolve entre esta ilha e a ilha Graciosa, sede de uma outra erupção vulcânica, em 1867 (Weston, 1964). A erupção de 1998-99 apresenta como principais características uma muito baixa sismicidade associada, centros emissores localizados a profundidades entre 300 e 800 metros e um carácter marcadamente efusivo.

     Refira-se que as ilhas e os ilhéus resultantes da actividade vulcânica submarina têm frequentemente uma existência efémera, uma vez que são destruídas pela acção erosiva do mar, especialmente quando são formadas por níveis incoerentes, não compactados. Tal foi o caso da Ilha Sabrina, edificada na sequência da erupção de 13 de Junho de 1811, ocorrida no mar a cerca de uma milha da costa SW de São Miguel. Formada por escórias basálticas, esta ilha atingiu cerca de 100 metros de altura mas foi rapidamente destruída pela erosão marinha, de modo que, em Outubro de 1811, só restava um baixio na zona onde fora edificado o cone (Weston, 1964).

     O arquipélago dos Açores, tem sido palco de uma intensa actividade sísmica, bem documentada pelos registos históricos existentes e pela sua sismicidade instrumental. Para além de uma actividade sísmica relacionada com os fenómenos vulcânicos - observados ou inferidos (vide sismos sentidos na costa ocidental da ilha de São Miguel, em 1713) - a elevada sismicidade do arquipélago resulta essencialmente da tectónica regional e local, traduzindo-se pela ocorrência de sismos fortes, sentidos com maior ou menor intensidade em quase todas as ilhas do arquipélago (Nunes, 1991).

     A vasta bibliografia disponível sobre a actividade sísmica histórica no arquipélago dos Açores evidencia que os sistemas Faial-Pico e Terceira-São Miguel (incluindo-se aqui a ilha Graciosa) constituem os principais sistemas tectónicos geradores da sismicidade do arquipélago. Por outro lado, o assinalável incremento de actividade sísmica no sistema Terceira-São Miguel no período 1988/89 (com a ocorrência de cerca de 230 sismos sentidos, sobretudo nas ilhas Graciosa e São Miguel) parece confirmar o intervalo de recorrência de 7 a 9 anos proposto por V.H. Forjaz para as crises sísmicas no arquipélago dos Açores (Nunes et al., 1992).

     Apesar da sismicidade instrumental dos Açores cobrir um espaço de tempo de cerca de um século, só a implementação de uma rede microssísmica permanente, em 1980, veio melhorar qualitativa e quantitativamente os dados relativos à sismicidade instrumental do arquipélago dos Açores (Nunes, 1991), passando a ser possível registar um grande número de sismos de pequena e média magnitude, gerados nas ilhas e nas suas proximidades.

     A análise da sismicidade instrumental do arquipélago dos Açores no período 1980-1989 (Nunes, 1991), mostrou que a grande maioria dos epicentros calculados se dispõe ao longo do alinhamento definido pelo Rifte da Terceira, com os eventos dispersos ao longo de uma faixa de orientação WNW-ESE que se estende desde a região ocidental da ilha Graciosa até à região oriental da ilha de Santa Maria, passando pelas ilhas Terceira, São Miguel e os Ilhéus das Formigas (Figura 1.5).

     O estudo efectuado mostrou também que a distribuição espacial dos sismos sentidos, globalmente mais energéticos, obedece ao mesmo padrão atrás referenciado e que a Zona de Fractura Faial-Pico apresenta uma notável sismicidade no período estudado, sobretudo no troço que se desenvolve para Oeste da ilha do Faial (Figura 1.5).

Fig. 1.5. Cartas epicentrais para a região dos Açores, referentes aos períodos 1980-1988 (a) e 1989-98 (b).

 

 

     Apesar do pequeno intervalo de tempo estudado, das limitações impostas pela distribuição geográfica da rede sísmica de detecção e da sua distância aos epicentros, foi igualmente possível localizar eventos na Crista Médio-Atlântica e no extremo SE do Rifte da Terceira, na zona de transição para a Falha GLORIA. Finalmente, este estudo permitiu obter, pela primeira vez, um conjunto de epicentros localizado nas proximidades da Fossa Oeste da Graciosa, que traduzem uma importante actividade sísmica que se desenvolveu em 1989 no extremo NW do Rifte da Terceira, numa zona que é apontada como a região epicentral do sismo de 1837 (Nunes, 1991).

 

 

     1.4. PETROLOGIA E GEOQUÍMICA

 

     As rochas dos Açores enquadram-se, genericamente, na série dos basaltos alcalinos (Figura 1.6), embora alguns autores reportem a existência de basaltos transicionais na ilha Terceira, nas séries vulcânicas mais antigas do Nordeste, na ilha de São Miguel e na Serra das Fontes, na ilha Graciosa (França, 1993). A predominância de rochas da série alcalina, contrasta com o carácter toleítico das rochas da Crista Médio-Atlântica.

     Aplicando diagramas de discriminação tectonomagmática a rochas do arquipélago dos Açores, Gaspar et al. (1990) evidenciam o carácter alcalino das séries estudadas, enquadrando-as no domínio dos basaltos intraplaca. Uma vez que as ilhas dos grupos oriental e central se localizam na fronteira de placas Euroasiática-Africana, logo num contexto geodinâmico interplaca, aqueles autores sugerem que o carácter intraplaca evidenciado naqueles diagramas reflectirá um fenómeno à escala regional, na sequência da acção provocada pela presença de uma pluma mantélica.

     Petrograficamente, nas ilhas de Santa Maria, São Jorge e Pico predominam os basaltos ou os basaltos alcalinos picríticos, enquanto que nas restantes ilhas há uma maior variedade de termos petrográficos, desde basaltos alcalinos picríticos a traquitos, incluindo hawaitos e mugearitos (Self e Gunn, 1976). Está, ainda, referenciada a presença de rochas mais evoluídas nas ilhas dos Açores, designadamente de traquitos comendíticos, comenditos e panteleritos, na ilha Terceira, de comenditos e traquitos comendíticos na ilha Graciosa e de traquitos comendíticos na ilha de São Miguel (França, 1993).

     No que aos elementos maiores diz respeito, as lavas da ilha Terceira apresentam um maior enriquecimento em sílica do que as das outras ilhas, enquanto que as rochas da ilha de São Miguel são as mais potássicas do arquipélago dos Açores e na ilha de Santa Maria os basaltos são mais sódicos (White et al., 1979). Relativamente aos elementos traço, as rochas de São Miguel apresentam um enriquecimento em elementos como Rb, Cs, Ti, Ba e em terras raras leves (White et al., 1979), enquanto que na ilha Terceira esse enriquecimento é sobretudo ao nível do Ba e das terras raras pesadas. As rochas da ilha de Santa Maria apresentam valores anómalos em Y e muito elevados em Ba, Sr, Hf, Ta, P e terras raras leves (França, 1993).

 

Fig. 1.6. Diagrama representativo da composição química de rochas ao longo da CMA (in: Walker, 1971a).


 

 

     Os dados disponíveis sobre os basaltos toleíticos amostrados ao longo da crista (MORB) mostram haver importantes diferenças geoquímicas (no que diz respeito aos elementos menores, elementos traço e às razões isotópicas) entre estes basaltos nos segmentos da CMA que atravessam a Plataforma dos Açores e os dos troços da CMA que não interactuam com as ilhas do arquipélago dos Açores. Assim, e de acordo com Schilling (1975), White et al. (1976) e White e Schilling (1978), os MORB provenientes de zonas na proximidade das ilhas dos Açores evidenciam maiores afinidades geoquímicas com os “Basaltos das Ilhas Oceânicas” (OIB) do que com os MORB, típicos dos segmentos de rifte.

     Geoquimicamente, pode-se caracterizar os basaltos das ilhas dos Açores como apresentando uma maior concentração em elementos de largo raio iónico do que os basaltos toleítos da CMA na zona da Plataforma dos Açores. Por outro lado, as ilhas de Santa Maria, Terceira, Graciosa, São Jorge, Flores e Corvo apresentam razões 87Sr/86Sr semelhantes às dos toleíticos da CMA na zona dos Açores, sugerindo a existência de fontes mantélicas geoquimicamente semelhantes, embora podendo apresentar ligeiras heterogeneidades (White et al., 1979). Nesse contexto, refira-se que as ilhas do Faial, Pico e São Miguel poderão ter tido uma origem a partir de fontes mantélicas diferentes, na medida em que apresentam maiores razões 87Sr/86Sr do que os basaltos toleíticos típicos da CMA.

     Atendendo à semelhança das razões Mg/(Mg+Fe2+) e às concentrações de Ni, Cr, Co e Sc, White et al. (1979) apontam para a impossibilidade dos basaltos das ilhas dos Açores serem provenientes da mesma fonte mantélica dos basaltos toleíticos do troço da CMA que atravessa a Plataforma dos Açores por diferentes graus de cristalização fraccionada. Neste contexto, a explicação sugerida por aqueles autores é a de que os basaltos das ilhas dos Açores serão provenientes da mesma fonte mantélica dos referidos basaltos toleíticos, mas resultantes de menores graus de fusão.

     A anomalia geoquímica detectada no troço da CMA que atravessa a Plataforma dos Açores, e que foi atrás mencionada, traduz-se, designadamente, por razões La/Sm e 87Sr/86Sr excepcionalmente elevadas, sugerindo White et al. (1979) a existência de uma pluma mantélica que, ao misturar-se com o magma subjacente à Plataforma dos Açores, seria responsável por aquelas diferenças geoquímicas. Nesse contexto, os basaltos toleíticos (MORB) dos segmentos típicos de rifte (exteriores à Plataforma dos Açores) seriam, como é usual, originários de uma astenosfera empobrecida. A presença de uma pluma mantélica, para além de justificar a anomalia geoquímica verificada no troço da CMA que intersecta a Plataforma dos Açores, estaria ainda de acordo com dados geofísicos disponíveis, designadamente com uma anomalia gravimétrica positiva que se observa nos fundos oceânicos na região dos Açores.

     Mais recentemente, Feraud et al. (1980), partindo da datação da actividade vulcânica de cada uma das ilhas dos Açores e da distância das ilhas à CMA, concluíram que os dados obtidos não são consistentes com um modelo simplista da existência de uma pluma mantélica estacionária na região dos Açores. Isto é, o padrão obtido para a distribuição das idades das ilhas não é compatível com a migração simples da litosfera sobre um hot spot (“ponto quente”), fixo e de pequenas dimensões, como acontece, designadamente, na cordilheira hawaiana. De acordo com estes autores, a considerar-se a existência de tal “ponto quente” na região dos Açores, este terá mais de 300 km de diâmetro e mover-se-á no manto.