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Categoria: Geologia
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Por Galopim de Carvalho

"Nós, humanos, e toda a biodiversidade, que nos rodeia, somos o resultado de uma longa evolução biológica iniciada há mais de 3800 milhões de anos (Ma). Os elos desta evolução, ou seja, os animais e plantas do passado, quase sempre conservados no seio das rochas sedimentares, são os fósseis, designados pelos geólogos pioneiros pelo sugestivo nome de petrificados, dado que, na grande maioria dos casos, são antigos seres vivos transformados em pedra.

Só a partir do século XVIII o termo fóssil passou a ter o significado que hoje lhe damos. Anteriormente, num tempo em que minerais e pedras se confundiam, fóssil (do latim fossilis) era tudo o que se extraía da terra. Eram fósseis os minerais, as rochas, os fósseis (no sentido que hoje damos à palavra), os achados pré-históricos e arqueológicos e outras curiosidades, sempre que desenterradas.


Desde a Antiguidade que conchas petrificadas, achadas no seio de certas rochas, em terras longe do mar e, por vezes, no alto das montanhas, levavam a supor que o mar ocupara, outrora, esses lugares. Com base nesta suposição, o historiador grego Heródoto (séc. V a. C.) admitia a existência de um antigo golfo na região onde hoje se localiza o Egipto. No século XV, Leonardo da Vinci (1452-1519) defendia que estes e outros achados eram antigos seres vivos e não o produto de influências astrais, como era crença no saber medieval, dominado pela Igreja. Dois séculos depois, o médico e naturalista dinamarquês, Niels Stensen (1638-1686), conhecido entre nós por Nicolau Steno, ensinava que os corpos encontrados nas rochas, que se assemelhassem a plantas e a animais, eram restos de plantas e de animais posteriormente petrificados.
Fóssil é hoje um conceito amplamente vulgarizado, aprendido nos bancos da escola, nos museus de História Natural ou em séries televisivas. Os fósseis podem corresponder à totalidade do corpo do ser, o que é relativamente raro, podem ser apenas parte maior ou menor do seu corpo (um osso, um dente, uma concha), o que é frequente, ou limitar-se a uma impressão, como é o caso dos moldes, ou a um simples vestígio da sua existência, como são as pegadas, os gastrólitos (pedras que ingeriam para ajudar a triturar os alimentos no estômago, à semelhança da moela nas galinhas), os coprólitos (excrementos fossilizados) e outros rastos.


Para que se forme um fóssil e para que ele chegue ao nosso conhecimento é necessário que os respectivos organismos, ou parte deles, tenham ficado rapidamente protegidos contra os agentes destruidores, nomeadamente, o oxigénio do ar. Assim, é necessário que tenham sido imediatamente cobertos pelos materiais em sedimentação. Geralmente fossilizam com maior frequência as partes duras, esqueléticas, ou os seus fragmentos, como ossos, dentes, carapaças, conchas, escamas, etc., que, por serem mais resistentes, se conservam melhor. Há, todavia casos, embora raros, em que fossilizaram as partes moles. Tal é devido à substituição da matéria orgânica não esquelética do indivíduo por certos produtos minerais, como calcite, pirite, opala, calcedónia, etc., num processo designado por petrificação ou mineralização de que são exemplos os troncos de árvores silicificados. São fósseis os restos de rinocerontes mumificados em asfalto, nos Cárpatos orientais, de mamutes congelados nos gelos da Sibéria e de insectos e outros artrópodes aprisionados em âmbar (uma resina fóssil).


Mais frequentes são os casos em que o corpo do indivíduo, ou parte do mesmo, fica impresso nos sedimentos que o envolveram, do que resulta um molde em negativo. Sempre que o corpo original seja destruído no interior do sedimento, o respectivo vazio pode ser preenchido por substâncias minerais, produzindo-se, assim, uma réplica da configuração externa desse corpo.
Um outro tipo de fossilização, muito particular, é a incarbonização, que consiste no enriquecimento progressivo em carbono, relativamente aos outros componentes do corpo fossilizado, via de regra, vegetal. Esta transformação tem lugar ao abrigo do ar e nela participam bactéria aneróbias. Os carvões fósseis, como a hulha, são exemplo de incarbonização e atestam a importância deste processo ao longo da história da Terra.


Conhecem-se fósseis que só ocorrem em rochas geradas em determinados ambientes. Tal acontece porque os indivíduos que lhe deram origem ocupavam um habitat muito restrito.
Muito úteis nas reconstituições paleoambientais, estes fósseis não têm grande interesse no estabelecimento de correlações cronológicas e estratigráficas. Fósseis correspondentes a espécies de existência muito efémera têm grande utilidade em estratigrafia, pois estão confinados a intervalos de tempo muito restritos, materializados pelas sérias sedimentares onde se encontram, sendo característicos desses intervalos e, portanto, com muito significado em termos de idade relativa. São os fósseis de idade e têm tanto mais interesse estratigráfico quanto maior tenha sido a expansão do respectivo ser, à escala global, e quanto melhor tenha sido a sua capacidade de fossilização, aspectos que determinam a sua abundância.
Ao invés dos fósseis de idade, há outros de grande distribuição vertical (no tempo) e, portanto, sem grande interesse em geocronologia relativa. Correspondem a seres que se mantiveram praticamente invariantes ao longo dos tempos, alguns dos quais chegaram até nós. São os “fósseis vivos”, como o Nautilus (cefalópode), o Latimeria (celacanto), as baratas, a Ginkgo biloba (uma árvore), etc., formas ditas pancrónicas, cujos vestígios fossilizados recuam a muitas dezenas e, mesmo, a centenas de milhões de anos.
Testemunhos de seres muito antigos são as estruturas microscópicas, atribuídas a cianobactérias (antigas algas microscópicas azul-esverdeadas) identificadas em rochas sedimentares do Arcaico (período da história da Terra com mais de 2500 Ma) da Suazilândia, com cerca de 3000Ma. Embora não tenham deixado fósseis, no sentido habitual do termo, outros seres rudimentares, geradores de estruturas afins, estão na origem de carbono orgânico em rochas sedimentares da Austrália, com 3500Ma, e da Gronelândia, com cerca de 3700Ma.
A vida ao longo do Arcaico e do Proterozóico (do grego proterós, anterior, e zoikos, animal, é o intervalo de tempo da história da Terra que está compreendido entre 2500 e 542 Ma) esteve confinada ao mar, representada, sobretudo, por bactérias e algas dificilmente fossilizáveis. A primeira e a mais célebre ocorrência do surgimento dos metazoários (animais pluricelulares) foi encontrada no Proterozóico superior dos Montes Ediacara, no sul da Austrália, de idade compreendida entre 550 e 700Ma. De corpo mole e sem partes esqueléticas, a fossilização destes seres primitivos (medusas, penas-do-mar, entre outros) é um acontecimento raro e de grande importância. A grande raridade de fósseis no Pré-câmbrico, isto é, o conjunto do Arcaico e do Proterozóico (os primeiros 4000 dos 4540 Ma de idade do nosso planeta, ou seja, cerca de 90%), deve-se à inexistência de seres com esqueleto. As substâncias construtoras de esqueletos (quitina, carbonato de cálcio, sílica e fosfato de cálcio) só começaram a ser elaboradas a partir de um dado nível de oxigénio na atmosfera, estimado entre 3 e 7% do valor actual, o que aconteceu no início do Fanerozóico, (do grego phanerós, visível, e zoicos, animal), há 540 Ma.
Ao contrário das inúmeras dúvidas e incertezas relativamente ao Pré-câmbrico, os elementos paleontológicos dos tempos que se lhe seguiram são abundantes, permitindo uma informação mais vasta e segura. O Fanerozóico iniciou-se por uma explosão de vida onde já estão representadas plantas não vasculares (algas) e muitos dos grupos actuais de invertebrados, a maioria com partes esqueléticas susceptíveis de fossilizar. A vida continuava confinada ao meio marinho, iniciando uma caminhada evolutiva no sentido da biodiversidade actual. Ao longo desta evolução, a biosfera sofreu diversas interrupções, marcadas por extinções em massa, após o que novas espécies repovoaram os lugares deixados pelas que desapareceram.
O registo fóssil dos animais e plantas que nos precederam é vastíssimo e não pára de crescer. Enchendo armários e gavetas de museus, centros de investigação e universidades, este registo é o suporte de uma disciplina especializada – a Paleontologia – e complemento essencial da Estratigrafia, a ciência que lê nas camadas das rochas sedimentares como de páginas de um livro se tratassem."