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Categoria: Geologia
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Por António Galopim de Carvalho

Barro vermelho é, entre nós, o nome de uma cerâmica cozida em forno oxigenado, a temperaturas na ordem de 900 ºC, de cor avermelhada, variando entre tons mais acastanhados e mais alaranjados. Por efeito do aquecimento, a que a pasta cerâmica é submetida, tem lugar a oxidação do ferro existente em determinadas “impurezas” (impregnações de minerais contendo ferro), dando ao produto final os citados tons. Vidrado (superficialmente) ou não, consoante os usos pretendidos, tem baixa resistência mecânica ou, como se costuma dizer, é quebradiço.
Via de regra, tem por pasta uma mistura de argilas (magra e gorda) e areia de quartzo. Tem por principal destino a cerâmica de construção civil (em especial, telhas, tijolos e ladrilhos), sendo igualmente importante como loiça e outros produtos ditos de barro vermelho ou, simplesmente, de barro. Alguns autores preferem o termo terracota, retirado do italiano terra cotta que, literalmente, quer dizer argila cozida.


O barro vermelho caracteriza-se por ter grande porosidade, o que representa uma qualidade tida por interessante em cântaros, bilhas, jarros, barris, cantis e outros recipientes destinados a manter a água fresca. Isto porque, sendo porosas, as paredes do recipiente permitem que a água esteja sempre a aflorar à superfície e, portanto, sempre a evaporar-se. Sabido que a evaporação é um fenómeno endotérmico, isto é, que absorve calor, percebe-se que esse calor é retirado da água a daí a sua frescura sempre que mantida nestes recipientes. Porém, para alguidares, potes, panelas, cafeteiras, sertãs, pratos e outras baixelas de cozinha ou de mesa, onde o carácter poroso desta cerâmica representa um factor negativo, recorre-se a um acabamento superficial, o atrás referido por vidrado. Entende-se por vidrado o revestimento de uma peça cerâmica (como as atrás citadas), por um produto vitrificável (sílica e um fundente, pulverizados) que, espalhado à sua superfície (a seco ou numa suspensão aquosa) e aquecido com ela, a torna impermeável, lhe dá brilho e salienta os eventuais desenhos, pinturas ou texturas.
Remonta a milhares de anos o uso do barro, tal como a natureza o criou, para o fabrico de artefactos rudimentares e frustres, conforme o demonstram as mais diversas descobertas arqueológicas pelos quatro cantos da Terra. Os primeiros utensílios neste tipo de cerâmica datam, como se disse atrás, do Neolítico que, tanto quanto se sabe, surgiu com a manufactura de vasos e outras peças relacionadas com a confecção e a guarda de alimentos.


O uso da loiça de barro vermelho ou, simplesmente, loiça de barro, vidrada (total ou parcialmente) e não vidrada ainda persiste, entre nós, por terras esquecidas do interior e em muitas tabernas, casas de pasto e restaurantes urbanos, com propósitos tradicionais de chamamento ao turismo.


Em contraste com o carácter essencialmente artesanal desta loiça, a indústria dita de barro vermelho, mais precisamente, a das telhas e tijolos está espalhada por todo o país, de norte a sul, onde quer que abunde a respectiva matéria-prima, produzindo a quantidade e variedade de tipos, em resposta às necessidades da construção civil.


Na indústria deste tipo de barro há maquinaria própria para preparar a pasta cerâmica, mas, na laboração tradicional, o oleiro começa por expor, ao sol, a matéria-prima que traz ou recebe, vinda do barreiro, a fim de, bem seco, o poder triturar em pequenos fragmentos, ou “esmigalhar”, como se diz ainda. A seguir “derrrega-o”, de preferência com um regador, para que a água seja uniformemente espalhada e totalmente absorvida, amolecendo-o, a fim de o “amassar”. Depois de amassado segundo técnicas que variam de região para região, e removidos eventuais fragmentos de pedra (cascalho), obtém a “pasta trabalhável” na “roda”. Herança da presença muçulmana no sul da Península, a “roda” continua a ser o principal utensílio do oleiro nesta arte.


Montada na “arquina”, ou seja, a mesa de trabalho, sobre a qual é colocado um recipiente com água (onde o oleiro vai molhando as mãos), é nesta “roda” (accionada com os pés sobre uma outra, maior e coaxial, existente por baixo da “arquina”) que o oleiro coloca uma porção de barro, em forma de bola que, na gíria, tem o nome de “péla” (do latim vulgar, "pilla", bola).


As mãos experientes do oleiro, sobre esta porção de pasta, bem colada à “roda” e a rolar à velocidade pretendida, fazem nascer as mais variadas peças que, por fim, corta pela base com um arame ou um fio, e põe a secar.
As asas das bilhas, cântaros e de outras peças, que delas necessitem, são as únicas partes feitas fora da roda. O oleiro molda-as à mão e cola-as às respectivas peças com um pouco de “lamugem” alisando os remates com a “cana”. Diga-se que a “lamugem” é a junção da palavra lama com o sufixo -ugem", que exprime a ideia de semelhante (semelhante a lama) sendo uma pasta de barro mais fina e fluida que, durante o trabalho, o oleiro vai retirando das mãos e dos instrumentos e que vai colocando de parte.


Desejando que uma ou outra peça apresente a superfície lisa, algo brilhante, há que “bruni-la”, operação de alisamento tradicionalmente feita com um seixo rolado. Depois de quase secas (com cerca de 7 a 10% de humidade), as peças são sabiamente empilhadas no forno (“enfornadas”) onde “cozem”, seguindo procedimentos que a tradição e a experiência ditaram.


Poderia encher-se um ou mais livros sobre a indústria e o artesanato nacionais, tal a quantidade e variedade de fábricas, artesãos e artistas que têm no barro a matéria-prima por excelência.


Recordemos que uma parte importante desta matéria-prima é produto de alteração meteórica (rególito ou saprólito), que permanecem no local da rocha-mãe como, por exemplo, os barros vermelhos de Ral (Ferreira do Zêzere), de Santa Catarina (Tomar), de Menoita (Guarda) e do Alentejo, onde os há por alteração quer dos xistos, quer de plutonitos básicos (dioritos e gabros), quer do grande filão dolerítico que percorre esta província de NE para SW. Também se integram neste conjunto, as chamadas “terras rossas”, ou argilas vermelhas residuais, de dissolução de calcários das Orlas Mesocenozóicas, em especial, nos do Jurássico, e dos mármores paleozóicos, nomeadamente, os de Estremoz-Borba-Vila Viçosa. A outra parte corresponde a abundantes depósitos sedimentares incluídos nas séries estratigráficas das Orlas Mesocenozóicas Ocidental e Meridional (em especial no Triásico, no Jurássico superior e no Cretácico inferior e final) e nas das Bacias Cenozóicas, com destaque para as do Tejo-Sado e Lousã.